Antes de começar
A história do Amazonas também foi escrita por estudantes.
Das primeiras instituições de ensino na Amazônia à fundação da UEE-AM, em 2003, conheça a trajetória de gerações de estudantes que ajudaram a transformar a educação amazonense e continuam construindo essa história.
Foi escrita nas salas de aula, nos corredores das universidades, nas assembleias, nos centros acadêmicos e nas ruas de Manaus. Foi construída por gerações de jovens que compreenderam que estudar não significa apenas adquirir conhecimento, mas também participar das decisões que definem o futuro da sociedade.
Muito antes da fundação da União Estadual dos Estudantes do Amazonas (UEE-AM), estudantes amazonenses já se organizavam para defender a educação, conquistar direitos e enfrentar injustiças.
Essa trajetória atravessa diferentes momentos da história brasileira: a formação das primeiras instituições educacionais, o nascimento das entidades estudantis, a resistência à ditadura militar, as manifestações pela meia-passagem, a redemocratização e os desafios de garantir o acesso e a permanência no ensino superior.
Conhecer essa história é reconhecer que nenhum direito nasce por acaso. Por trás de cada conquista existem pessoas, organizações e gerações que decidiram transformar suas reivindicações em mobilização coletiva.
É também compreender que o movimento estudantil não pertence apenas ao passado: ele continua vivo em cada estudante que se organiza para transformar sua realidade.
As raízes da educação amazônica
Para compreender o nascimento do movimento estudantil amazonense, é necessário voltar ao período em que a educação formal, organizada segundo os modelos europeus, ainda dava seus primeiros passos na região.
Muito antes da chegada dos colonizadores portugueses, os povos indígenas já possuíam formas próprias de educação, transmitindo conhecimentos, histórias, idiomas, técnicas e tradições entre gerações.
Durante o Brasil Colônia, a presença portuguesa modificou profundamente esse cenário. A educação passou a estar ligada às missões religiosas, especialmente às atividades de evangelização conduzidas por ordens católicas, e aos interesses da administração colonial.
A criação da Capitania de São José do Rio Negro, em 1755, marcou uma etapa importante da organização política portuguesa no território que hoje corresponde a grande parte do Amazonas.
Naquele período, a educação formal era restrita e estava distante de representar um direito universal. Também não existiam organizações estudantis semelhantes aos grêmios, centros acadêmicos e diretórios que surgiriam nos séculos seguintes.
A região, entretanto, já possuía uma longa história de resistência e mobilização popular.
Entre 1835 e 1840, a Cabanagem sacudiu a antiga Província do Grão-Pará, envolvendo indígenas, negros, mestiços, trabalhadores e setores populares em uma das mais importantes revoltas do Brasil imperial.
A Cabanagem não foi um movimento estudantil. Mas sua história demonstra que a população amazônica já lutava contra desigualdades, exclusão política e estruturas de poder que pouco representavam suas necessidades.
Nas décadas seguintes, a criação de escolas e a ampliação da instrução pública favoreceram o surgimento de novos espaços de formação.
Um marco fundamental aconteceu em 31 de agosto de 1864, com a criação do Liceu Provincial Amazonense, instituição que está na origem do atual Colégio Amazonense Dom Pedro II.
Considerado a primeira instituição pública de ensino secundário do Amazonas, o Liceu representou um passo importante na estruturação do sistema educacional da província.
Embora o acesso à educação ainda fosse limitado, a formação de escolas permanentes ajudou a criar os espaços nos quais, posteriormente, os jovens desenvolveriam formas próprias de participação e organização.
Manaus abre as portas ao ensino superior
No início do século XX, Manaus vivia os efeitos das transformações econômicas e urbanas relacionadas ao ciclo da borracha.
Foi nesse contexto que, em 17 de janeiro de 1909, surgiu a Escola Universitária Livre de Manáos, uma experiência pioneira na história do ensino superior brasileiro.
A instituição reunia diferentes áreas do conhecimento e buscava ampliar as oportunidades de formação superior na região.
Em 1913, passou a se chamar Universidade de Manáos.
Apesar das dificuldades econômicas que levaram ao encerramento de suas atividades como universidade em 1926, parte de seu legado permaneceu, especialmente por meio da Faculdade de Direito.
Décadas depois, essa trajetória seria incorporada à memória institucional da Universidade Federal do Amazonas.
Em 1962, uma lei federal criou a Universidade do Amazonas, instalada em 1965 e posteriormente denominada Universidade Federal do Amazonas (UFAM).
A consolidação dessas instituições teve enorme importância para o futuro movimento estudantil.
À medida que crescia o número de estudantes, também surgiam novas necessidades: melhores condições de ensino, assistência, alimentação, transporte, participação nas decisões acadêmicas e representação coletiva.
Era o início de uma nova etapa da história educacional amazonense.
Uma voz nacional para os estudantes
No cenário nacional, um acontecimento transformou a organização universitária brasileira.
Em 11 de agosto de 1937, no Rio de Janeiro, foi fundada a União Nacional dos Estudantes (UNE).
A criação da entidade representou a consolidação de uma organização nacional voltada à defesa dos interesses universitários e à participação dos estudantes nos grandes debates do país.
Desde seus primeiros anos, a UNE demonstrou que a juventude poderia exercer um papel que ultrapassava os limites das instituições de ensino.
Durante a Segunda Guerra Mundial, estudantes participaram de mobilizações contra o nazifascismo. Nas décadas seguintes, estiveram presentes na campanha O Petróleo É Nosso, nas discussões sobre reforma universitária e em movimentos pela democracia.
A atuação da UNE influenciou estudantes de diferentes regiões, inclusive da Amazônia, que começaram a fortalecer suas próprias organizações locais.
O movimento estudantil brasileiro passava a conectar a defesa da educação com questões relacionadas ao desenvolvimento nacional, à soberania e aos direitos da população.
Essa tradição se tornaria uma referência para as gerações de estudantes amazonenses que posteriormente participariam de grandes mobilizações.
O Amazonas organiza sua representação
A organização universitária amazonense possui uma história anterior à atual UEE-AM.
Em 4 de janeiro de 1942, foi fundada a União dos Estudantes do Amazonas (UEA), por estudantes como João Martins da Silva, Samuel Benchimol, Plínio Coêlho, José Lindoso e outros jovens da época.
A entidade se tornou uma importante referência de representação dos universitários do estado.
Entre suas atividades estavam iniciativas de assistência estudantil, ações culturais, defesa de direitos e participação em campanhas nacionais.
A organização também esteve associada à criação e ao funcionamento de espaços destinados aos estudantes, como biblioteca, restaurante e atividades culturais.
A sede estudantil localizada na Rua Barroso, no Centro de Manaus, foi um importante ponto de encontro da juventude universitária.
A União dos Estudantes do Amazonas acompanhou diferentes momentos da vida política brasileira e ajudou a construir uma tradição de representação estudantil no estado.
É importante distinguir três organizações que aparecem nessa história: a União dos Estudantes do Amazonas, fundada em 1942; a Universidade do Estado do Amazonas, instituição pública criada em 2001; e a União Estadual dos Estudantes do Amazonas, fundada em 2003.
Cada uma possui sua própria trajetória, embora compartilhem parte do contexto educacional amazonense.
A força que nasce nas escolas
Enquanto os universitários fortaleciam sua representação, os estudantes das escolas também ampliavam sua participação política.
No Brasil, a criação da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES), em 25 de julho de 1948, representou um passo decisivo na organização dos estudantes da educação básica.
No Amazonas, esse processo ganhou força com a fundação da União dos Estudantes Secundaristas do Amazonas (UESA), em 13 de janeiro de 1952.
O congresso de fundação ocorreu no Teatro Amazonas, reunindo representantes estudantis em um dos espaços mais simbólicos da capital.
A UESA passou a integrar as grandes mobilizações em defesa das escolas, dos direitos dos secundaristas e das condições de acesso à educação.
Ao longo das décadas, a entidade se destacaria especialmente na defesa do transporte estudantil.
A articulação entre universitários e secundaristas também ajudou a ampliar a capacidade de mobilização do movimento amazonense.
Grêmios estudantis, centros acadêmicos e diretórios passaram a formar redes de organização que permitiam aos estudantes discutir problemas comuns e encaminhar reivindicações.
A força do movimento estudantil não estava apenas nas entidades estaduais. Ela começava dentro das próprias escolas e universidades.
A Amazônia se encontra em Manaus
Um marco importante da articulação regional aconteceu entre 5 e 10 de julho de 1962, quando Manaus sediou o I Seminário de Estudantes Secundários do Norte.
O encontro reuniu representantes de diferentes estados e territórios amazônicos, demonstrando que a juventude da região buscava construir espaços próprios de diálogo e organização.
O acontecimento foi registrado pelo jornal O Estudantil, produzido pela União Roraimense dos Estudantes Secundaristas (URES).
Entre os participantes citados nos registros históricos aparecem estudantes do Amazonas, Acre, Pará, Amapá, Rondônia e do então Território Federal de Roraima.
O seminário demonstrou que as dificuldades de comunicação e as enormes distâncias geográficas não impediam a construção de vínculos entre as organizações estudantis amazônicas.
Ao mesmo tempo, evidenciou uma característica que acompanharia o movimento estudantil da região durante décadas: a necessidade de relacionar as bandeiras nacionais às particularidades locais.
Os estudantes da Amazônia compartilhavam as grandes preocupações da juventude brasileira, mas enfrentavam desafios próprios, como o isolamento de comunidades, a precariedade dos transportes e as desigualdades de acesso à educação.
Essas diferenças precisavam ser reconhecidas para que o movimento estudantil fosse verdadeiramente representativo.
Organizar, resistir, reconstruir
O golpe militar de 1964 interrompeu violentamente o processo democrático brasileiro.
As entidades estudantis foram diretamente atingidas pelo novo regime. Organizações sofreram perseguições, dirigentes foram presos, reuniões passaram a ser vigiadas e o movimento estudantil foi submetido a fortes restrições.
A UNE perdeu seu reconhecimento legal e enfrentou a clandestinidade.
Em 1968, a repressão ganhou novos capítulos, com o assassinato do estudante Edson Luís, a Passeata dos Cem Mil, a repressão ao Congresso da UNE em Ibiúna e a decretação do Ato Institucional nº 5.
No Amazonas, os estudantes também enfrentaram dificuldades para manter suas organizações.
Apesar das restrições, a participação política não desapareceu completamente.
Redes de estudantes, professores, trabalhadores e organizações comunitárias mantiveram diferentes formas de resistência e mobilização.
Pesquisas sobre o movimento estudantil amazônico mostram que organizações políticas, setores progressistas das igrejas e movimentos sociais contribuíram para a circulação de ideias e o fortalecimento de novas lideranças.
Na segunda metade dos anos 1970, com o avanço da luta pela redemocratização, os estudantes voltaram a ampliar suas atividades públicas.
Em 1979, o Congresso da UNE realizado em Salvador marcou a reconstrução pública da entidade nacional.
O país ainda vivia sob a ditadura, mas uma nova geração se preparava para ocupar as ruas.
No Amazonas, essa retomada daria origem a um dos períodos mais intensos da história do movimento estudantil.
O direito de chegar à sala de aula
No início da década de 1980, o transporte coletivo se tornou uma das principais preocupações dos estudantes amazonenses.
Em uma cidade que crescia rapidamente, o custo das passagens dificultava o deslocamento de milhares de jovens para escolas e universidades.
Para muitas famílias, pagar o transporte diariamente representava um peso significativo no orçamento.
A situação provocou uma reação organizada.
Em 2 de maio de 1980, estudantes da UESA e do Diretório Universitário da então Universidade do Amazonas realizaram um ato público na Praça São Sebastião, em Manaus.
A manifestação contou com a participação de outras organizações estudantis, pastorais e movimentos sociais.
As lideranças formaram o Comando de Luta pela Meia-Passagem, que passou a organizar as reivindicações e negociações com o poder público.
A pressão estudantil produziu resultados.
Em junho daquele ano, a Câmara Municipal de Manaus aprovou a meia-passagem, benefício que começaria a vigorar em agosto.
Entretanto, o sistema possuía limitações.
Os estudantes enfrentavam restrições na quantidade de passes, dificuldades para comprá-los e regras que impediam sua utilização em diferentes empresas de transporte.
A conquista inicial, portanto, não significou o encerramento da mobilização.
Nos anos seguintes, a juventude continuou reivindicando a ampliação do benefício e melhores condições de deslocamento.
A meia-passagem se tornou um símbolo da luta pelo direito à educação.
Afinal, não basta existir uma escola ou universidade: é preciso garantir que o estudante tenha condições de chegar até ela.
O passe único e a liberdade de manifestar
Em 1981, as mobilizações estudantis ganharam novos capítulos.
A principal reivindicação passou a ser a implantação do passe único, que permitiria aos estudantes utilizar o benefício em diferentes empresas de transporte, reduzindo as dificuldades enfrentadas por quem precisava pegar mais de um ônibus.
As manifestações reuniram estudantes secundaristas, universitários e diferentes setores da sociedade.
No dia 28 de agosto de 1981, um episódio de violência marcou profundamente essa trajetória.
Durante uma mobilização na Praça São Sebastião, policiais militares investiram contra estudantes. Parte dos manifestantes procurou refúgio na Igreja de São Sebastião, mas a repressão alcançou o interior do templo.
O acontecimento provocou indignação e manifestações de repúdio.
Dias depois, em 3 de setembro, uma nova passeata reuniu milhares de pessoas, em protesto contra a violência policial e em defesa dos direitos dos estudantes.
A mobilização ampliou a pressão sobre a administração municipal.
O movimento conseguiu avanços na implantação do passe único, embora dificuldades administrativas e restrições ainda persistissem.
A experiência mostrou que a luta por direitos estudantis também estava ligada à defesa da liberdade de manifestação e da participação democrática.
Permanecer também é um direito
Enquanto a questão do transporte mobilizava a juventude nas ruas, os universitários também enfrentavam dificuldades dentro das instituições de ensino.
Em 1982, estudantes da então Universidade do Amazonas participaram de uma grande mobilização em defesa do Restaurante Universitário.
O movimento ficou conhecido como Luta pelo Bandejão.
A reivindicação demonstrava que conquistar uma vaga no ensino superior não era suficiente para garantir a continuidade dos estudos.
A alimentação, assim como o transporte e a moradia, fazia parte das condições necessárias para que os universitários pudessem frequentar as aulas e concluir seus cursos.
A luta pelo Bandejão antecipou debates que permaneceriam importantes durante décadas.
O movimento estudantil defendia que a universidade pública precisava oferecer oportunidades reais de permanência, especialmente para estudantes de baixa renda.
Essa preocupação se tornaria uma das grandes bandeiras da representação universitária amazonense no século XXI.
A Batalha da Praça da Matriz
O dia 20 de setembro de 1983 entrou para a memória do movimento estudantil amazonense.
Naquela data, uma grande manifestação contra o aumento das passagens de ônibus tomou as ruas do Centro de Manaus.
O protesto ocorreu após um novo reajuste tarifário anunciado pela Prefeitura, que elevou o valor da passagem e provocou forte insatisfação popular.
Organizados por entidades estudantis, jovens participaram de um ato que deveria seguir pelas ruas da capital para apresentar suas reivindicações ao poder público.
Entretanto, a manifestação foi marcada por confrontos e intensa repressão policial.
Na região da Praça da Matriz e da Catedral de Manaus, estudantes e outros participantes foram encurralados e agredidos pelas forças de segurança.
O episódio ficou conhecido como Batalha da Praça da Matriz.
Houve pessoas feridas, estudantes detidos e novas manifestações nos dias seguintes.
A violência provocou reações de professores, advogados, organizações religiosas, parlamentares e diferentes representantes da sociedade civil.
As reivindicações ultrapassaram a questão do transporte e passaram a incluir a defesa do direito de manifestação e das liberdades democráticas.
A documentação histórica reunida pelo pesquisador Durango Duarte registra a Batalha da Praça da Matriz como um dos episódios mais importantes da história do movimento estudantil amazonense.
Os acontecimentos de setembro de 1983 permanecem como símbolo de uma geração que enfrentou a repressão e demonstrou a força da organização coletiva.
Sua memória pertence aos estudantes, às entidades e aos movimentos sociais que participaram daquela luta.
A juventude na reconstrução democrática
Com o fim da ditadura militar, em 1985, o Brasil iniciou uma nova etapa de reconstrução democrática.
O movimento estudantil participou desse processo e continuou presente em mobilizações nacionais.
A UNE e a UBES estiveram entre as organizações que participaram das campanhas pelas eleições diretas e, em 1992, do movimento dos caras-pintadas pelo impeachment do presidente Fernando Collor.
No Amazonas, a redemocratização fortaleceu os debates sobre representação estudantil, financiamento da educação e condições de ensino.
Grêmios, centros acadêmicos, diretórios e entidades estaduais continuaram participando da vida educacional e política.
A partir dos anos 1990, as discussões também passaram a envolver a expansão do ensino superior, a regulamentação das instituições privadas, a democratização do acesso às universidades e a assistência estudantil.
A juventude amazonense precisava enfrentar desafios antigos, como transporte e desigualdade social, enquanto novas questões surgiam com as transformações do sistema educacional.
O crescimento das instituições de ensino superior também criou a necessidade de ampliar a representação universitária.
O ensino superior ganha o interior
Em 12 de janeiro de 2001, a Lei Estadual nº 2.637 autorizou a criação da Universidade do Estado do Amazonas (UEA).
A instituição passou a representar uma importante oportunidade de ampliação do ensino superior público, especialmente diante das dificuldades de acesso enfrentadas pelos jovens do interior.
Com o passar dos anos, a UEA desenvolveu atividades acadêmicas em diferentes municípios amazonenses, ampliando a formação de profissionais e a produção de conhecimento na região.
Essa expansão modificou a realidade educacional do estado.
Mais estudantes passaram a ingressar no ensino superior, mas também surgiram novas reivindicações.
Os desafios envolviam transporte, alimentação, bolsas, moradia, infraestrutura, professores, bibliotecas, laboratórios e condições de permanência.
Em um território de grandes distâncias, rios e comunidades de difícil acesso, defender a educação exigia compreender realidades muito diferentes.
Foi nesse cenário que a organização universitária estadual ganhou um novo capítulo.
Nasce a UEE-AM
Em 19 de outubro de 2003, foi fundada a União Estadual dos Estudantes do Amazonas (UEE-AM), conforme registra a memória institucional da entidade.
A organização surgiu com o propósito de fortalecer a representação dos estudantes do ensino superior amazonense e ampliar sua participação nas principais discussões educacionais do estado.
A fundação da UEE-AM representou uma nova etapa de uma história construída por diferentes gerações.
A entidade nasceu em um contexto de expansão universitária e de fortalecimento dos debates sobre acesso à educação, financiamento público e direitos estudantis.
Desde sua criação, a UEE-AM identifica entre suas principais bandeiras a defesa da meia-passagem, do passe livre, da meia-entrada, da ampliação das vagas no ensino superior público, da melhoria das condições de permanência universitária e da regulamentação do ensino superior privado.
Essas reivindicações expressam uma preocupação central: garantir que a universidade seja um espaço acessível e democrático, capaz de oferecer oportunidades reais de formação.
Ao longo dos anos, a entidade participou de articulações com diretórios centrais dos estudantes, centros acadêmicos, organizações estudantis nacionais e outros movimentos sociais.
A relação com a União Nacional dos Estudantes (UNE) fortaleceu a participação do Amazonas em debates nacionais sobre educação.
A UEE-AM passou a integrar campanhas e congressos, contribuindo para aproximar as reivindicações amazonenses das discussões realizadas em outras regiões do Brasil.
Ao mesmo tempo, sua atuação precisava levar em consideração as particularidades da Amazônia.
Defender a educação no Amazonas também significa enfrentar problemas relacionados ao deslocamento entre municípios, à desigualdade territorial, à assistência estudantil e às condições de acesso das populações indígenas, ribeirinhas e de comunidades tradicionais.
Decidir juntos os próximos caminhos
Os congressos estudantis representam uma parte essencial da trajetória da UEE-AM.
São espaços nos quais estudantes de diferentes instituições podem debater propostas, avaliar a atuação da entidade, estabelecer prioridades e escolher suas direções.
Ao longo de sua história, a UEE-AM realizou encontros que reuniram representantes de Manaus e de municípios do interior.
Esses congressos permitiram discutir temas como a meia-passagem, a qualidade das universidades, a assistência estudantil e os desafios educacionais da região.
Também contribuíram para a formação de novas lideranças e para o fortalecimento das relações entre o movimento universitário amazonense e as entidades nacionais.
A organização coletiva é um dos elementos mais importantes da representação estudantil.
Ela permite que reivindicações individuais se transformem em propostas comuns, discutidas democraticamente e apresentadas às instituições responsáveis pelas políticas educacionais.
Solidariedade em tempos de emergência
Em 2020, a pandemia de Covid-19 trouxe desafios extraordinários para o Brasil e atingiu duramente o Amazonas.
A crise sanitária também provocou dificuldades econômicas e sociais para estudantes e trabalhadores.
Nesse período, a UEE-AM participou de uma Rede Solidária organizada em conjunto com a UNE, UBES, Sindicato dos Trabalhadores em Educação do Amazonas (SINTEAM), Associação dos Docentes da Universidade Federal do Amazonas (ADUA) e outras organizações sociais.
A iniciativa arrecadou alimentos destinados à distribuição de cestas básicas para famílias em situação de vulnerabilidade.
A ação demonstrou que a atuação estudantil não se limita às manifestações e reivindicações dentro das universidades.
Em momentos de emergência social, a organização coletiva também pode contribuir diretamente para a proteção da vida e para o atendimento das necessidades da população.
Do Amazonas à presidência da UNE
Uma das trajetórias mais marcantes da UEE-AM é a de Bruna Brelaz.
Amazonense, Bruna iniciou sua participação no movimento estudantil ainda na educação básica, envolvendo-se em mobilizações relacionadas ao transporte e aos direitos da juventude.
Posteriormente, participou do movimento universitário e assumiu responsabilidades na direção da UEE-AM.
Entre 2015 e 2017, presidiu a entidade e integrou mobilizações relacionadas à educação, aos direitos sociais e ao desenvolvimento regional.
Sua atuação a levou à direção nacional da UNE.
Em 18 de julho de 2021, Bruna Brelaz foi eleita presidenta da União Nacional dos Estudantes, tornando-se a primeira mulher negra eleita para a presidência da entidade e a primeira liderança da Região Norte a ocupar o cargo.
O acontecimento representou um marco na história da representação estudantil brasileira.
Durante décadas, as organizações amazônicas precisaram enfrentar distâncias e desigualdades para participar das grandes decisões nacionais.
A chegada de uma ex-presidenta da UEE-AM à presidência da UNE demonstrou que estudantes do Amazonas também podiam ocupar os principais espaços de direção do movimento estudantil brasileiro.
Sua trajetória ajudou a dar visibilidade nacional às experiências e aos desafios da juventude amazônica.
Juventude, território e futuro
Com o passar dos anos, as discussões do movimento estudantil passaram a incorporar cada vez mais questões ambientais e territoriais.
Estudar na Amazônia significa conviver com problemas relacionados à preservação da floresta, às mudanças climáticas, à infraestrutura urbana e às oportunidades de desenvolvimento científico.
Esses temas também passaram a integrar iniciativas das organizações universitárias.
Em novembro de 2024, durante o G20 Social, a UEE-AM participou de uma articulação voltada à defesa ambiental da Amazônia.
Na ocasião, Ricardo Miranda, estudante de Ciências Econômicas da UFAM e diretor da entidade, apresentou o projeto Raízes para o Futuro, voltado à formação de uma rede de jovens agentes ambientais na região amazônica.
A proposta buscava envolver comunidades próximas às instituições de ensino superior em atividades relacionadas à proteção ambiental e à participação da juventude.
A iniciativa demonstrou como estudantes podem contribuir para o debate sobre o desenvolvimento sustentável, a pesquisa científica e o futuro da região.
Uma universidade comprometida com a Amazônia precisa produzir conhecimento sobre seu território e contribuir para melhorar as condições de vida da população.
Nesse cenário, o movimento estudantil também participa da discussão sobre o tipo de educação e de desenvolvimento que a região necessita.
Uma representação que amplia horizontes
O ano de 2025 entrou para a história da União Estadual dos Estudantes do Amazonas como um momento de renovação e ampliação da representatividade estudantil.
Durante o Congresso Estadual da UEE-AM, os estudantes elegeram Thaly Duarte, a primeira mulher trans a ocupar a presidência da entidade.
A eleição representou um marco na trajetória institucional da organização.
Mais do que uma mudança de direção, o acontecimento simbolizou a ampliação dos espaços de participação para pessoas que historicamente enfrentam barreiras e preconceitos no acesso à educação e às posições de liderança.
Ao longo de sua história, o movimento estudantil brasileiro participou de importantes mobilizações pela democracia, pela igualdade de direitos e pela inclusão social.
A eleição de uma mulher trans para a presidência da UEE-AM acrescentou um novo capítulo a essa trajetória no Amazonas.
O acontecimento também destacou a importância de construir instituições educacionais nas quais todas as pessoas tenham condições de estudar, participar, apresentar propostas e ocupar espaços de decisão, independentemente de sua identidade de gênero.
Com Thaly Duarte na presidência, a UEE-AM deu continuidade às mobilizações em defesa da universidade pública, da assistência estudantil, do financiamento da educação e dos direitos dos estudantes amazonenses.
O Congresso de 2025 passou, assim, a integrar os marcos históricos da entidade, demonstrando que a construção de um movimento estudantil democrático também envolve ampliar a representatividade de sua direção.
A presença de mulheres, pessoas negras, indígenas, LGBTQIA+ e estudantes de diferentes origens sociais nos espaços de decisão contribui para tornar o movimento estudantil mais próximo da diversidade existente nas universidades.
O acontecimento reafirmou a importância de uma representação estudantil plural, participativa e comprometida com a realidade da juventude amazônica.
A universidade pública precisa de recursos
O ano de 2026 foi marcado por importantes mobilizações da União Estadual dos Estudantes do Amazonas.
Sob a presidência de Thaly Duarte, a entidade participou de manifestações em defesa do financiamento da educação pública, da assistência estudantil, da segurança e de melhores condições de ensino.
As mobilizações demonstraram que a luta estudantil continua necessária, mesmo depois de décadas de conquistas.
Em junho de 2026, estudantes, professores e servidores da Universidade do Estado do Amazonas se mobilizaram contra medidas do Governo do Estado que atingiram aproximadamente R$ 100 milhões do orçamento da instituição.
A possibilidade de perda desses recursos provocou preocupação sobre o funcionamento dos cursos, a manutenção das unidades no interior, as bolsas estudantis, a pesquisa e os serviços oferecidos à comunidade acadêmica.
A UEE-AM, em conjunto com o Sindicato dos Docentes da Universidade do Estado do Amazonas (Sind-UEA) e outras organizações, participou da mobilização em defesa do orçamento universitário.
No dia 18 de junho, estudantes, professores e servidores realizaram uma manifestação em frente à sede do Governo do Amazonas, em Manaus, exigindo a preservação dos recursos e melhores condições para a universidade.
Durante o ato, representantes estudantis destacaram que a redução dos investimentos poderia comprometer especialmente as políticas de permanência e as oportunidades de formação da juventude amazonense.
A pressão coletiva contribuiu para o recuo do governo em relação à transferência direta dos valores.
Entretanto, os recursos permaneceram contingenciados, mantendo a preocupação com a disponibilidade efetiva do orçamento.
O episódio reforçou uma das principais bandeiras da UEE-AM: a defesa de uma universidade pública, gratuita, de qualidade e com recursos suficientes para atender às necessidades da população amazonense.
Nenhum direito a menos
Em 25 de setembro de 2026, a UEE-AM convocou estudantes para uma nova mobilização, desta vez em frente à Reitoria da Universidade do Estado do Amazonas.
Com o lema “Nenhum Direito a Menos”, o movimento reuniu reivindicações relacionadas ao cotidiano dos universitários.
Entre as principais cobranças estavam a regularização do pagamento das bolsas de assistência estudantil, extensão e tutoria, a garantia de alimentação adequada no Restaurante Universitário, a contratação de professores e melhorias na segurança das unidades acadêmicas.
Os estudantes também reivindicaram maior participação nas decisões da universidade e um diálogo mais próximo entre a administração superior e a comunidade estudantil.
Outra preocupação estava relacionada à qualidade do ar em Manaus.
Diante da fumaça que atingia a capital, estudantes questionaram a manutenção das atividades presenciais em condições consideradas prejudiciais à saúde.
A mobilização demonstrou que defender a educação não significa apenas lutar pela abertura de vagas.
Significa também garantir que os estudantes tenham condições de frequentar as aulas, alimentar-se, permanecer na universidade e concluir seus cursos com dignidade.
A educação participa dos rumos do país
Em outubro de 2026, a UEE-AM continuou participando das mobilizações da comunidade universitária amazonense.
No dia 8 de outubro, a entidade esteve presente em uma manifestação realizada por estudantes e professores da Universidade Federal do Amazonas.
A atividade reuniu integrantes do movimento estudantil e organizações da comunidade acadêmica em debates relacionados à educação pública, aos direitos sociais e à participação política no contexto das eleições nacionais daquele ano.
A mobilização refletiu uma característica histórica do movimento estudantil brasileiro: além das reivindicações diretamente acadêmicas, suas entidades também participam de discussões sobre os rumos da sociedade e das políticas públicas.
Ao longo da história, a juventude organizada esteve presente em debates sobre democracia, financiamento da educação, direitos sociais e desenvolvimento nacional.
No Amazonas, essa participação também envolve as particularidades de uma região marcada por grandes desafios sociais, econômicos, territoriais e ambientais.
A memória segue viva
Uma história que continua
As mobilizações de 2026 demonstram como as reivindicações estudantis atravessam diferentes gerações.
Na década de 1980, os estudantes amazonenses foram às ruas pela meia-passagem e pelo direito de se alimentar na universidade.
Mais de quarenta anos depois, a juventude continua reivindicando transporte, alimentação, assistência estudantil, financiamento público e condições adequadas de ensino.
Mudam os tempos, as instituições e as formas de mobilização.
Mas permanece a necessidade de organização coletiva para defender direitos e construir novas conquistas.
A eleição de Thaly Duarte em 2025 e as mobilizações realizadas ao longo de 2026 representam novos capítulos dessa história, construída coletivamente por estudantes de diferentes cursos, instituições e municípios.
A história do movimento estudantil amazonense não pertence a uma única entidade, liderança ou geração.
Ela é resultado da participação de milhares de estudantes que, em diferentes momentos, organizaram assembleias, criaram jornais, participaram de congressos, defenderam direitos e ocuparam espaços de decisão.
É a história das primeiras organizações universitárias, da UNE, da UBES, da UESA, dos diretórios, dos grêmios, dos centros acadêmicos e das mobilizações que marcaram a vida do Amazonas.
É também a história da UEE-AM, que, desde 2003, integra essa trajetória e mantém viva a defesa da educação e da participação estudantil.
Preservar essa memória é reconhecer quem veio antes, compreender os desafios do presente e criar caminhos para as próximas gerações.
Porque o movimento estudantil não se resume às manifestações que aparecem nos noticiários.
Ele existe quando uma turma se reúne para discutir seus problemas. Quando estudantes defendem melhores condições de ensino. Quando uma comunidade universitária cobra assistência, inclusão e respeito. Quando jovens decidem participar da construção do futuro.
A história nos ensina que a educação se transforma quando os estudantes também se tornam protagonistas dessa transformação.
No Amazonas, essa história atravessa gerações.
E continua sendo escrita por cada estudante que acredita na força da educação, da democracia e da organização coletiva.
